domingo, 20 de agosto de 2017

As três moças de São Nizier

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Em Vercors, nos Alpes franceses, subindo ainda mais alto pelo lado da Torre Sans-Venin, hás três rochedos verticais que parecem estátuas e sobressaem na montanha.

Todos os habitantes de Grenoble conhecem esses três rochedos míticos que surgem altaneiros entre os picos de Vercors. Os alpinistas vencem muitos desafios quando conseguem escalá-los.

Eles são conhecidos como “as três moças de São Nizier”. Sabeis qual é a origem de seu nome tão curioso? Pois  Eis o que aconteceu:

Três moças muito belas e sobre tudo muito vaidosas viviam numa aldeia de Vercors.

Os seus costumes coquetes deixavam surpresos os habitantes do local que tinham muitas dificuldades para sobreviver cultivando aquela terra árida no verão e fria no inverno.

Num verão, enquanto todo mundo trabalhava duro nos campos, as três senhoritas passeavam pelas pradarias.

As "três moças de Saint Nizier"
‒ Oh!, exclamou uma delas, olhem! Com essas flores eu arranjarei um lindo vaso!

‒ Ah! com elas eu faria uma coroa para meus cabelos, disse uma outra.

‒ Olha! o vendedor ambulante de panos está vindo ai!

‒ Ah ! Sim, sim ! Vamos ver quais são as novas cores no seu carrinho!

E partiram com inteira despreocupação sem pensar nos perigos que poderiam acontecer.

Após terem descido a ladeira encontraram três malandros que as aguardavam. Eles avançavam gritando obscenidades irreproduzíveis.

‒ “Socorro! Ajuda!” gritou uma.

‒ “Fujamos logo”, disse outra.

‒ “Ah! se eu tivesse sabido...”, acrescentou a terceira.

As três vaidosas compreenderam tarde seu erro. E saíram correndo em direção da aldeia que ficava muito longe.

São Nizier.
São Nizier.
Mas as roupas prendiam nas pedras e os bandidos se aproximavam espertos, agressivos e velozes.

Percebendo que estavam perdidas, as três lembraram de invocar o Santo da paróquia.

São Nizier sempre foi muito solícito com seus devotos. Lá, do Céu estava vendo a cena e decidiu dar uma lição exemplar às três moças e que valesse para todas as coquetes que andam pelo mundo.

Todas elas ficariam sabendo que a despreocupação da descocada tem graves consequências.

São Nizier, em lugar de castigar os vagabundos, decidiu transformar as três moças em rochedos.

Os criminosos ficaram sem o que queriam.

As moças foram salvas.

Mas ficaram para sempre lá petrificadas lembrando às moças do vale para serem sérias, prudentes, laboriosas, e obedientes aos pais.




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domingo, 6 de agosto de 2017

São Bernardo fez o demônio servir de roda

São Bernardo de Claraval. Heiligenkreuz, Áustria
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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São Bernardo voltou certa vez à sua aldeia natal – Fontaine, perto de Dijon – para encontrar junto à lagoa de sua infância toda a calma e toda a força de que necessitava.

Com efeito, através de sua eloquência e da força de convicção de sua fé, ele deveria arrastar para a segunda Cruzada tudo quanto na Europa havia de melhor na nobreza e nas classes populares de boa vontade.

Por isso ele precisava de um momento de contemplação e repouso em sua terra natal.

Tanto mais quanto havia tempo que inquietações e dúvidas o assaltavam e atormentavam, dando a impressão de que uma diabólica mão pesava-lhe sobre as costas, queimando-a.

Uma voz lhe murmurava palavras desencorajadoras e anunciava que seu projeto iria fracassar.

Imagens ora tentadoras, ora aterrorizantes desfilavam diante de seus olhos.

São Bernardo lutava contra o demônio com todo o poder da oração, sendo nisso ajudado pela tranquilizadora paisagem de seus jovens anos.

A serenidade voltou e ele decidiu se reunir com o já numeroso magote de companheiros de fé e de combate, com os quis pegou a estrada de Vézélay.

Os caminhos naqueles tempos eram ruins e difíceis, as viagens lentas e penosas, o perigo acompanhando os viajantes como se fosse parte de sua própria bagagem.

Demônio queria impedir a pregação da Cruzada
Entretanto, incidente algum de importância perturbou o avanço do comboio que se aproximava do ponto de chegada.

Ora, uma tempestade de uma violência extraordinária pegou-os uma noite num vale muito estreito.

Um ruído infernal descia como que rolando de pedra em pedra, torrentes de lama ameaçavam a todo o momento levar as carruagens, os bois e os cavalos.

Os viajantes encontraram refúgio numa gruta onde acabaram cedendo ao sono.

São Bernardo ficou só sob a tempestade a fim de tranquilizar os animais.

O santo tentou desentalar uma das charretes que estava atolada na lama, mas enquanto o fazia uma de suas rodas quebrou completamente.

Um riso estridente se fez ouvir nas suas orelhas e ele percebeu nas costas o sopro ardente que ele conhecia bem.

O diabo não abandonava sua presa e naquela noite mostrava-se mais empedernido.

E o diabo mordeu o rabo e foi fazendo o trabalho
da roda quebrada
São Bernardo fez então lentamente o Sinal da Cruz e com voz forte deu ordem ao demônio para ocupar o lugar da roda quebrada.

Uivando de dor e de raiva, o espírito mau não pôde resistir à vontade daquele que agora era seu senhor.

Mordendo a própria cauda, ele assumiu a forma circular e tirou com suas forças a charrete entalada.

O amanhecer despontou calmo e luminoso sobre o comboio já disposto em ordem e todos retomaram a estrada.

Apenas um gemido melancólico proveniente de uma roda ritmava a marcha: esta foi a única lembrança dos furores da noite.

No dia seguinte, São Bernardo atingiu o alto da colina de Vézélay e ali pregou a Cruzada com o brilho que a História registrou.




(Fonte: Sophie e Béatrix Leroy d’Harbonville, “Au rendez-vous de la Légende Bourguignonne”, ed. S.A.E.P., Ingersheim 68000, Colmar, França, págs. 59-60)


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domingo, 23 de julho de 2017

Não cairmos em vergonha (Cantiga 94)

Nossa Senhora da Misericórdia, Sano di Pietro (1405-1481), col. privada.
Luis Dufaur
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Cantiga 94 do rei de Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María

Esta cantiga fala como Santa Maria ficou servindo no lugar da freira que fugiu do mosteiro.


“A Virgem Maria trata sempre de nos livrar de pecar e de errar”.

E nos protege de pecar, e até quer nos encobrir quando caímos em pecado; depois nos faz arrepender e praticar a emenda dos pecados que cometemos.

Sobre isto, quero mostrar um milagre que numa abadia quis mostrar a Santa Rainha sem par que nos guia.

Havia lá uma freira que, segundo fiquei sabendo, era uma jovem formosa e, além do mais, sabia guardar a regra da Ordem, e nenhuma outra era tão diligente em aproveitar tudo o que tinham, e por isso lhe deram a tesouraria.

Mas o demônio, ao qual aquilo não agradava, a fez apaixonar-se de tal maneira por um cavaleiro, que não lhe dava repouso, até que conseguiu que ela saísse do mosteiro.

Mas, antes de sair, ela foi deixar as chaves que levava no cinto, sobre o altar d’Aquela em quem acreditava.

– “Ai, Mãe de Deus – disse ela então em sua oração – Vos deixo este encargo, e a Vós de coração me recomendo”.

Nossa Senhora substitui a freira que fugiu do convento
Nossa Senhora substitui a freira que fugiu do convento
E foi-se, não para viver bem sua vida com aquele que achava que amava mais do que a si mesma, e muito tempo duraram com ele suas loucuras.

E o cavaleiro, depois que a levou, fez com ela filhos e filhas. Mas a Virgem fiel, que nunca amou a estultícia, mostrou então maravilhas, porque fez que ela lamentasse a vida que tinha abandonado, e assim voltasse ao claustro em que antes vivia.

Mas, no tempo em que ela andava com mau juízo, a Virgem ficou fazendo o que ela lhe tinha encomendado: ocultou muito bem a fuga, porque se pôs em seu lugar e foi dando andamento a tudo o que ela deveria ter feito, de maneira que nada faltava, segundo o parecer de quem via as coisas.

Mas, depois que a monja se arrependeu e se separou do cavaleiro, não comeu nem dormiu até que viu o mosteiro. E nele entrou com medo, e começou a perguntar aos conhecidos em que estado se encontrava o local, porque queria saber.

E lhe disseram então, sem mais:

– “Temos abadessa, priora e tesoureira, e cada una de elas vale muito, e nos fazem bem e não mal, em grande estilo”.

Enquanto isto escutava, mais fazia o Sinal da Cruz, porque ouvia ser nomeada entre essas. E com grande pavor, tremendo e empalidecida, foi até a igreja. Mas a Mãe do Senhor lhe mostrou tanto amor – e bendita seja por isso –, que encontrou as chaves onde as tinha deixado e foi procurar os hábitos que antes vestia.

E logo a seguir, sem vacilar nem ter vergonha de nada, reuniu o convento e contou a todas o grande bem que lhe fez Aquela que tem o mundo sob seu manto; e para provar o acontecido, fez chamar seu amigo para contar tudo.

As monjas ficaram certamente muito maravilhadas ao constatar que era coisa provada, dizendo que nunca se vira nada tão formoso – pelo nome de São João –, e que jamais lhes contaram algo assim.

E se puseram a cantar com grande alegria: “Deus te salve, Estrela do Mar, Luz do dia”.


Vídeo: Não cairmos em vergonha (Cantiga de Santa Maria 94)







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domingo, 9 de julho de 2017

O santo ermitão e o servidor que não entendia as pregações

Santo Antônio do Deserto. Burgos, Espanha
Santo Antônio do Deserto. Burgos, Espanha
Luis Dufaur
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Houve um santo ermitão que morava num pobríssima cabana na floresta.

Ele mantinha um pobre servidor que não retinha nada dos ensinamentos que ouvia.

E por isso nunca ia assistir pregação alguma.

Ele contou então ao santo anacoreta a causa pela que nunca ia a missão ou catequese qualquer que fosse:

— “Eu não consigo guardar nada do que ouço”.

Então esse santo ermitão lhe disse:

— “Pega essa panelinha”.

Porque ele tinha uma panelinha para cozinhar o peixe, e lhe disse:

— “Põe água a ferver. Quando a água estiver fervendo joga um pouco na panelinha que está toda engordurada”.

E o rústico fez o que ele mandou.

— “Vai, joga tudo fora sem deixar nada”.

Assim fez o serviçal. E o ermitão lhe disse:

— “Agora olha se ela está gordurenta como estava antes”.

O servidor tapado disse que de fato estava menos engordurada.

Então o ermitão voltou a dizer:

— “Acrescenta mais uma vez um pouco de água fervendo e joga-a fora”.

Ele o fez. E ficou ainda mais limpa.

São Bernardino de Siena foi autor de muitas fábulas moralizadoras. Benvenuto di Giovanni (1436 - 1509-1518)
São Bernardino de Siena foi autor de muitas fábulas moralizadoras.
Benvenuto di Giovanni (1436 - 1509-1518)
E lhe ordenou agir da mesma maneira diversas vezes. E de cada vez a panelinha estava mais limpa.

Por fim, o santo ermitão lhe disse:

— “Tu falas que não reténs nada na cabeça! Sabes por quê? Porque tu tens tua mente engordurada como estava a panela.

“Vai e enche-a de água e verás que logo tua mente se purificará.

“E acrescenta um outro pouco. E quanto mais, mais limpa ficará.

“Quanto mais vezes ouvirás a palavra de Deus, tanto mais tua mente se desentupirá.

“E quanto mais limpa ficar, tanto mais compreenderás a palavra de Deus.

“No fim, tua mente estará inteiramente limpa e purificada sem sujeira nem coisa feia alguma”.



(Autor: San Bernardino de Siena, “Apologhi e Novellette”, Intratext)



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domingo, 25 de junho de 2017

Como São Francisco pregou às aves e fez calar as andorinhas

São Francisco de Assis prega aos passarinhos (detalhe). Ambrogio Bondone, chamado Giotto  (1266-7 – 1337).
São Francisco de Assis prega aos passarinhos (detalhe).
Ambrogio Bondone, chamado Giotto  (1266-7 – 1337).
Luis Dufaur
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O humilde servo de Cristo São Francisco, pouco tempo depois de sua conversão, tendo já reunido e recebido na Ordem muitos companheiros, entrou a pensar muito e ficou em dúvida sobre o que devia fazer, se somente entregar-se à oração, ou bem a pregar algumas vezes.

E sobre isso desejava muito saber a vontade de Deus.

E porque a humildade que tinha não o deixava presumir de si nem de suas orações, pensou de conhecer a vontade divina por meio das orações dos outros.

Pelo que chamou Frei Masseo e disse-lhe assim:

“Vai a Soror Clara e dize-lhe da minha parte que ela com algumas das mais espirituais companheiras rogue devotamente a Deus seja de seu agrado mostrar-me o que mais me convém: se me dedicar à pregação ou somente à oração.

“E depois vai a Frei Silvestre e dize-lhe o mesmo”.

Este fora no século aquele monsior Silvestre, que vira uma cruz de ouro sair da boca de São Francisco, a qual era tão alta que ia até ao céu e tão larga que tocava os extremos do mundo.

Era este Frei Silvestre de tanta devoção e de tanta santidade, que tudo quanto pedia a Deus obtinha e muitas vezes falava com Deus; e por isso São Francisco tinha por ele grande devoção.

Foi Frei Masseo, e conforme a ordem de São Francisco, deu conta da embaixada primeiramente a Santa Clara e depois a Frei Silvestre.

O qual, logo que a recebeu, imediatamente se pôs em oração e, rezando, obteve a resposta divina, e voltou a Frei Masseo e disse-lhe assim:

domingo, 11 de junho de 2017

O boi voador de Saint-Ambroix

O boi chamado Caïet salvou a concórdia geral
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Há muitos séculos – pois esta lenda se perde na noite dos tempos – a colheita de uvas foi fabulosamente abundante, excessiva demais e verdadeiramente incalculável, em Saint-Ambroix (Santo Ambrósio), na região de Gard, França.

Pelo excesso de uva, não havia mais um recipiente livre na cidade. Era impossível guardar adequadamente todo esse vinho.

O que fazer?

A desavença tomou conta dos habitantes cuja única renda era o fruto da terra.

‒ “Se nós não fazemos algo, vamos perder tudo”, disse um deles.

‒ “Sim, é verdade, o vinho vai estragar”, disse outro.

‒ “É culpa de nosso governante”, disse um terceiro, apontando para a casa do prefeito, chamado Roustan.

‒ “Poderemos engolir todo esse vinho até ficarmos bêbados”, grunhiu um maltrapilho deitado num banco.

domingo, 28 de maio de 2017

O lenhador que queria ficar rico sem trabalhar

O tesouro do castelo de Hohenstein
O tesouro do castelo de Hohenstein
Luis Dufaur
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Ficaram umas ruínas do castelo de Hohenstein, na Alemanha.

Elas não dão ideia da grandeza daquela cidadela medieval, e da riqueza de seu senhor.

Uma legenda conta que:

“Há já muito tempo, naquela densa floresta, um lenhador trabalhava duramente perto da cidadela.

“O lenhador, entretanto, acariciava um sonho. Ele até falava em alta voz, quando ninguém o ouvia:

‒ “Que tal ficar rico sem trabalhar? Uma sorte, um inesperado, e a gente acha um tesouro. Ah! Nunca mais trabalhar... que bom!

“O diabo que andava por ali perto pegou a coisa no ar e aprontou uma das dele.

“Quando os últimos raios de sol desapareceram por trás da colina, o lenhador parou seu serviço e pegou o caminho de volta.

“O demônio tinha ali montado uma arapuca. Como de pura sorte o lenhador julgou perceber entre as ruínas do castelo uma curiosa pilha de materiais transparentes e desconhecidos.