domingo, 10 de dezembro de 2017

Como São Francisco domesticou o ferocíssimo lobo de Gúbio

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




No tempo em que São Francisco morava na cidade de Gúbio apareceu no condado um lobo grandíssimo, terrível e feroz, o qual não somente devorava os animais como os homens, de modo que todos os citadinos estavam tomados de grande medo..

Frequentes vezes ele se aproximava da cidade; e todos andavam armados quando saíam da cidade, como se fossem para um combate; contudo quem sozinho o encontrasse não se poderia defender. E o medo desse lobo chegou a tanto que ninguém tinha coragem de sair da cidade.

Pelo que São Francisco, tendo compaixão dos homens do lugar, quis sair ao encontro do lobo, se bem que os citadinos de todo não o aconselhassem: e fazendo o sinal da santa cruz, saiu. da cidade com os seus companheiros, pondo toda a sua confiança em Deus. E temendo os outros ir mais longe, São Francisco tomou o caminho que levava ao lugar onde estava o lobo.

E eis que, vendo muitos citadinos, os quais tinham vindo para ver aquele milagre, o dito lobo foi ao encontro de São Francisco com a boca aberta: e chegando-se a ele São Francisco fez o sinal da cruz e o chamou a si, e disse-lhe assim:

“Vem cá, irmão lobo, ordeno-te da parte de Cristo que não faças mal nem a mim nem a ninguém”.

Coisa admirável! Imediatamente após São Francisco ter feito a cruz, o lobo terrível fechou a boca e cessou de correr; e dada a ordem, vem mansamente como um cordeiro e se lança aos pés de São Francisco como morto.

Então São Francisco lhe falou assim:

“Irmão lobo, tu fazes muitos danos nesta terra, e grandes malefícios, destruindo e matando as criaturas de Deus sem sua licença; e não somente mataste e devoraste os animais, mas tiveste o ânimo de matar os homens feitos à imagem de Deus; pela qual coisa és digno da forca, como ladrão e homicida péssimo: e toda a gente grita e murmura contra ti, e toda esta terra te é inimiga.

“Mas eu quero, irmão lobo, fazer a paz entre ti e eles; de modo que tu não mais os ofenderás e eles te perdoarão todas as passadas ofensas, e nem homens nem cães te perseguirão mais”.

Ditas estas palavras, o lobo, com o movimento do corpo e da cauda e das orelhas e com inclinação de cabeça, mostrava de aceitar o que São Francisco dizia e de o querer observar.

Então São Francisco disse: “Irmão lobo, desde que é de teu agrado fazer e conservar esta paz, prometo te dar continuamente o alimento enquanto viveres, pelos homens desta terra, para que não sofras fome; porque sei bem que pela fome é que fizeste tanto mal. Mas, por te conceder esta grande graça, quero, irmão lobo, que me prometas não lesar mais a nenhum homem, nem a nenhum animal: prometes-me isto?”

E o lobo, inclinando a cabeça, fez evidente sinal de que o prometia. E São Francisco disse: “Irmão lobo, quero que me dês prova desta promessa, a fim de que possa bem confiar“.

E estendendo São Francisco a mão para receber o juramento, o lobo levantou o pé direito da frente, e domesticamente o pôs sobre a mão de São Francisco, dando-lhe o sinal como podia.

E então disse São Francisco: “Irmão lobo, eu te ordeno em nome de Jesus Cristo que venhas agora comigo sem duvidar de nada, e vamos concluir esta paz em nome de Deus”.

E o lobo obediente foi com ele, a modo de um cordeiro manso; pelo que os citadinos, vendo isto, muito se maravilharam.

E subitamente esta novidade se soube em toda a cidade; pelo que toda a gente, homens e mulheres, grandes e pequenos, jovens e velhos, vieram à praça para ver o lobo com São Francisco.

E estando bem reunido todo o povo, São Francisco se pôs em pé e pregou-lhe dizendo, entre outras coisas, como pelos pecados Deus permite tais pestilências; e que muito mais perigosa é a chama do inferno, a qual tem de durar eternamente para os danados, do que a raiva do lobo, o qual só pode matar o corpo; quanto mais é de temer a boca do inferno, quando uma tal multidão tem medo e terror da boca de um pequeno animal!

“Voltai, pois, caríssimos, a Deus, e fazei digna penitência dos vossos pecados, e Deus vos livrará do lobo no tempo presente, e no futuro do fogo infernal”.

E acabada a prédica, disse São Francisco: “Ouvi, irmãos meus; o irmão lobo, que está aqui diante de vós, prometeu-me e prestou-me juramento de fazer as pazes convosco e de não vos ofender mais em coisa alguma, se lhe prometerdes de dar-lhe cada dia o alimento necessário; e eu sirvo de fiador dele de que firmemente observará o pacto de paz”.

Então todo o povo a uma voz prometeu nutri-lo continuadamente. E São Francisco diante de todos disse ao lobo: “E tu, irmão lobo, prometes observar com estes o pacto de paz, e que não ofenderás nem aos homens nem aos animais nem a criatura nenhuma?”

E o lobo ajoelha-se e inclina a cabeça, e com movimentos mansos de corpo e de cauda e de orelhas demonstra, quanto possível, querer observar todo o pacto.

Disse São Francisco: “Irmão lobo, quero, do mesmo modo que me prestaste juramento desta promessa, também diante de todo o povo me dês segurança de tua promessa, e que não me enganarás sobre a caução que prestei por ti”.

Então o lobo, levantando a pata direita, colocou-a na mão de São Francisco.

Pelo que, depois deste fato, e de outros acima narrados, houve tanta alegria e admiração em todo o povo, tanto pela devoção do santo, e tanto pela novidade do milagre e tanto pela pacificação do lobo, que todos começaram a clamar para o céu, louvando e bendizendo a Deus, o qual lhes havia mandado São Francisco, que por seus méritos os havia livrado da boca da besta cruel.

E depois o dito lobo viveu dois anos em Gúbio; e entrava domesticamente pelas casas de porta em porta, sem fazer mal a ninguém, e sem que ninguém lho fizesse; e foi nutrido cortesmente pela gente; e andando assim pela cidade e pelas casas, jamais nenhum cão ladrava atrás dele.

Finalmente, depois de dois anos o irmão lobo morreu de velhice: pelo que os citadinos tiveram grande pesar, porque, vendo-o andar assim mansamente pela cidade, se lembravam melhor da virtude e da santidade de São Francisco.

Em louvor de Cristo. Amém.


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domingo, 26 de novembro de 2017

A folgança e a honra não partilham moradia

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Uma vez o conde Lucanor voltava muito cansado, sofrido e pobre de uma batalha. Porém, antes que pudesse descansar, chegou-lhe a notícia de que se preparava mais uma guerra.

Muitos dos seus o aconselharam a descansar por certo tempo. Só depois poderia decidir o que achasse mais conveniente.

O conde perguntou a Patrônio sua opinião sobre este assunto.

Patrônio lhe disse:

— Senhor, para que possais fazer o melhor e mais conveniente, gostaria muito de vos contar a resposta que deu certa vez o conde Fernán González a seus vassalos.

O conde perguntou a Patrônio o que lhes tinha dito.

— Senhor conde – contou Patrônio – quando o conde Fernán González venceu ao rei Almanzor em Hacinas, muitos de seus soldados morreram e muitos dos sobreviventes, inclusive ele próprio, receberam graves feridas.

Antes que pudessem ser curados, soube o conde que o rei de Navarra ia atacar suas terras. Por isso, ordenou aos seus a se aprontarem para lutar contra os navarros.

Seus soldados lhe responderam que os cavalos estavam cansados, que eles também estavam, e que embora isso não os impedisse de entrar em combate, não devia fazê-lo, porque ele e todos os demais estavam malferidos, pelo que convinha aguardar até que todos estivessem curados.

Quando o conde viu que todos reusavam a luta, dirigiu-se a eles com estas palavras, valorizando mais a honra que o cansaço:

— Amigos, não abandonemos a empresa por causa das feridas, pois as novas que agora nos causarão, farão com que nos esqueçamos das recebidas em Hacinas, diante do mouro Almanzor.

Sepulcro de Fernán González tendo junto dois pendões de Castela
Vendo os seus que o conde não se preocupava nem com o cansaço nem com as feridas para defender sua honra e sua terra, marcharam junto com ele. O conde e seus soldados ganharam essa nova batalha e saíram vitoriosos.

Vós, senhor Conde Lucanor, se quiserdes fazer o que se deve para defender os vossos, as vossas terras e elevar a vossa honra, nunca sintais a dor, as fadigas ou os perigos, mas agi de maneira que os novos perigos e dores vos façam esquecer os passados.

O conde viu que esse exemplo era bom, seguiu-o e lhe foi muito bem.

E julgando o Infante Don Juan que este conto era muito bom, mandou guardá-lo neste livro e acrescentou os versos que dizem assim:

Tende isto por certo, pois é verdade provada:
que a folgança e a honra não partilham morada.






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domingo, 12 de novembro de 2017

O mistério do castelo de Löwenstein

O mistério do castelo de Loewenstein, afinal não era tão complicado como parecia.
O mistério do castelo de Loewenstein, afinal não era tão complicado como parecia.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Na Idade Média vários castelos foram refúgio de bandidos.

Eis um dos que devastavam a Alsácia a partir do castelo de Löwenstein.

Ele ficou conhecido como o “Lindenschmitt”.

Por volta de 1380, um cavaleiro desafortunado e sem terra apoderou-se pela força do castelo de Löwenstein, pertencente à família Ochsenstein.

Para sobreviver, o cavaleiro, acompanhado por um bando de degoladores, sequestrava todos os viajantes e aqueles que circulavam pelo seu território.

Para fazer cessar as pilhagens e devolver a calma à região, formou-se um exército contra ele.

Os cavaleiros perseguiram e prenderam cada um dos malfeitores.

Mas, curiosamente, o chefe era impossível de ser achado.

Foram trazidos cães farejadores que seguiam as marcas deixadas pelo seu cavalo, mas eles não conseguiam descobrir a direção que tinha tomado.

Alguém disse que ele desaparecia dentro de uma pedra. Outro achava que se evaporava como uma nuvem.

Assim nasceu a lenda do cavaleiro.

O chefe dos criminosos fugia e ninguém sabia para onde tinha ido
O chefe dos criminosos fugia e ninguém sabia para onde tinha ido
Evidentemente, as discussões nas aldeias pegaram fogo.

— Alguns acharam que o cavaleiro tinha feito pacto com Satanás.

— Outros garantiam de fonte segura que ele era um fantasma.

Mas durante séculos ninguém soube a verdade.

O castelo foi amaldiçoado e a região ficou isolada do resto do mundo.

Mas hoje se conhece o que aconteceu.

Após muitos anos pesquisando no terreno, lendo escritos em bibliotecas poeirentas, consultando os bruxos, religiosos e druidas, se pode saber que:

Esse cavaleiro tinha um nome legendário: o “Lindenschmitt”.

Mas esse nome significa “o ferreiro que ferrava ao revés”.

Eis o segredo das desaparições: as marcas iam ao sentido inverso à direção que ele tinha tomado!




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domingo, 29 de outubro de 2017

Os três pinheiros de Thann


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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política internacional,
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Na cidade de Thann, na Alsácia, França, todos os anos, no dia 30 de junho, os habitantes queimam três pinheiros na praça central da cidade.

A festa vem de um fato curioso da Idade Média.

Na metade do século XII vivia na Itália um santo homem chamado Thiébaut. Ele era bispo da cidade de Gubbio, na Umbria. Ele viveu sempre acompanhado de seu servidor.

Um dia, se sentindo mal lhe disse:

‒ “Aproxima-te fiel servidor”.

‒ “Cá estou, monsenhor”.

‒ “Há muitos anos, tu me serves lealmente, eu devo te recompensar”.

‒ “Não, monsenhor, já é uma honra vos servir”.

‒ “Escuta em lugar de falar... Quando eu partirei desta terra...”

‒ “Não fale isso...”

Igreja de Thann na noite
Igreja de Thann na noite
‒ “Chega, escuta bem! Eu quero que quando eu morrer, tu fiques com meu anel de bispo... shh!... É uma ordem!”

Foi assim que no ano do Senhor de 1160, o bispo São Thiébaut partiu para o céu.

Fazendo como lhe fora ordenado, o servidor foi tirar o anel do santo.

Mas, quanto mais ele tentava tirá-lo do dedo do morto, tanto mais ele se recusava a sair.

Ele puxou, puxou, puxou, até que arrancou o dedo.

Ele ficou totalmente perplexo, mas afinal acreditou se tratar seguramente de um sinal divino.

Ele, então, encaixou “anel e dedo” no seu cajado de peregrino e voltou a pé para sua terra natal, a Lorena.

A rota é longa desde a Itália até sua cidade no leste da França.

Numa noite do ano 1161, ele chegou a Thann, cidadinha custodiada por um imenso castelo. Como ele estava fatigado, decidiu dormir na orla da floresta. Ele apoiou o cajado num pinheiro e dormiu.

Na manha seguinte, ele comeu rapidamente alguns pedaços de seu pão, e foi partir novamente. Aproximou-se do pinheiro para pegar o cajado.

Mas, aconteceu o mesmo que com o anel. Ele não conseguia tirá-lo do lugar. Ele puxou, puxou, e... nada! Seu cajado tinha deitado raízes.

Naquela hora o senhor do castelo de Engelbourg ficou pasmo vendo um curioso fenômeno que acontecia na orla do bosque.

Ele viu três luzes que brilhavam no alto de um pinheiro.

Ele acorreu para o local e encontrou o servidor que não conseguia tirar o cajado com a relíquia do santo bispo.

Os dois contaram tudo o que sabiam e concluíram que em tudo isso havia um sinal divino.

Um e outro prometeram construir uma capela no local. E então, o cajado ficou solto e a disposição.



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domingo, 15 de outubro de 2017

Dona Truã

Leiteira normanda em Greville, Jean-François Millet (1814 – 1875),
Los Angeles County Museum of Art
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Certa feita, o Conde Lucanor falou a Patrônio desta maneira:

— Patrônio, um homem veio me propor uma coisa e me mostrou o meio de consegui-la.

Eu posso te garantir que traz tantas vantagens que, se com a ajuda de Deus sair bem, vai me ser de grande utilidade e proveito, pois os benefícios se somam uns aos outros e no fim serão muito grandes.

Então contou a Patrônio tudo quanto sabia.

Após ouvi-lo, Patronio respondeu ao conde:

— Senhor Conde Lucanor, sempre ouvi dizer que o prudente fica dentro das realidades e desdenha as fantasias, pois muitas vezes àqueles que vivem delas lhes acontece o mesmo que a dona Truã.

O conde perguntou o que tinha acontecido com ela.

— Senhor conde – disse Patrônio –, havia uma mulher chamada dona Truã que era mais pobre do que rica. Certo dia ela se dirigia ao mercado com uma panela cheia de mel na cabeça.

domingo, 1 de outubro de 2017

O Poço do Diabo no castelo de Fleckenstein

Diabo mascando precitos. Coppo di Marcovaldo, batistero da catedral de Florença.
Diabo mascando precitos. Coppo di Marcovaldo, batistero da catedral de Florença.
Luis Dufaur
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O altaneiro castelo de Fleckenstein fica na Alsácia, França. Hoje a fortaleza medieval está em ruínas.

Mas ela tem um poço de mais de 70 metros de profundidade inteiramente entalhado na rocha. Essa façanha não parece humana e fez nascer a lenda do Poço do Diabo de Fleckenstein:


“O ponto débil de todo castelo é a água. Se ficar sem ela o inimigo podia exigir a rendição.

“Por isso o senhor feudal de Fleckenstein fiz vir os melhores entendidos em poços da região. E eles se puseram a trabalhar encarniçadamente. Eles queriam topar o desafio!

“Dia após dia, semana após semana, o poço se aprofundava, mas nenhuma gota d’água aparecia para refrescá-los.

“Após um ano de um trabalho de Hércules, eles tinham atingido uma profundidade “próxima do centro da terra”, como eles diziam.

“Ali, os raios do sol não podiam mais iluminá-los e eles trabalhavam numa obscuridade desconhecida.

“E nunca encontravam a água!

“Foi então que apareceu um estranho poceiro. Ninguém conhecia-o.