domingo, 23 de julho de 2017

Não cairmos em vergonha (Cantiga 94)

Nossa Senhora da Misericórdia, Sano di Pietro (1405-1481), col. privada.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Cantiga 94 do rei de Castela Alfonso X, o Sábio. Cantigas de Santa María

Esta cantiga fala como Santa Maria ficou servindo no lugar da freira que fugiu do mosteiro.


“A Virgem Maria trata sempre de nos livrar de pecar e de errar”.

E nos protege de pecar, e até quer nos encobrir quando caímos em pecado; depois nos faz arrepender e praticar a emenda dos pecados que cometemos.

Sobre isto, quero mostrar um milagre que numa abadia quis mostrar a Santa Rainha sem par que nos guia.

Havia lá uma freira que, segundo fiquei sabendo, era uma jovem formosa e, além do mais, sabia guardar a regra da Ordem, e nenhuma outra era tão diligente em aproveitar tudo o que tinham, e por isso lhe deram a tesouraria.

Mas o demônio, ao qual aquilo não agradava, a fez apaixonar-se de tal maneira por um cavaleiro, que não lhe dava repouso, até que conseguiu que ela saísse do mosteiro.

Mas, antes de sair, ela foi deixar as chaves que levava no cinto, sobre o altar d’Aquela em quem acreditava.

– “Ai, Mãe de Deus – disse ela então em sua oração – Vos deixo este encargo, e a Vós de coração me recomendo”.

Nossa Senhora substitui a freira que fugiu do convento
Nossa Senhora substitui a freira que fugiu do convento
E foi-se, não para viver bem sua vida com aquele que achava que amava mais do que a si mesma, e muito tempo duraram com ele suas loucuras.

E o cavaleiro, depois que a levou, fez com ela filhos e filhas. Mas a Virgem fiel, que nunca amou a estultícia, mostrou então maravilhas, porque fez que ela lamentasse a vida que tinha abandonado, e assim voltasse ao claustro em que antes vivia.

Mas, no tempo em que ela andava com mau juízo, a Virgem ficou fazendo o que ela lhe tinha encomendado: ocultou muito bem a fuga, porque se pôs em seu lugar e foi dando andamento a tudo o que ela deveria ter feito, de maneira que nada faltava, segundo o parecer de quem via as coisas.

Mas, depois que a monja se arrependeu e se separou do cavaleiro, não comeu nem dormiu até que viu o mosteiro. E nele entrou com medo, e começou a perguntar aos conhecidos em que estado se encontrava o local, porque queria saber.

E lhe disseram então, sem mais:

– “Temos abadessa, priora e tesoureira, e cada una de elas vale muito, e nos fazem bem e não mal, em grande estilo”.

Enquanto isto escutava, mais fazia o Sinal da Cruz, porque ouvia ser nomeada entre essas. E com grande pavor, tremendo e empalidecida, foi até a igreja. Mas a Mãe do Senhor lhe mostrou tanto amor – e bendita seja por isso –, que encontrou as chaves onde as tinha deixado e foi procurar os hábitos que antes vestia.

E logo a seguir, sem vacilar nem ter vergonha de nada, reuniu o convento e contou a todas o grande bem que lhe fez Aquela que tem o mundo sob seu manto; e para provar o acontecido, fez chamar seu amigo para contar tudo.

As monjas ficaram certamente muito maravilhadas ao constatar que era coisa provada, dizendo que nunca se vira nada tão formoso – pelo nome de São João –, e que jamais lhes contaram algo assim.

E se puseram a cantar com grande alegria: “Deus te salve, Estrela do Mar, Luz do dia”.


Vídeo: Não cairmos em vergonha (Cantiga de Santa Maria 94)







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domingo, 9 de julho de 2017

O santo ermitão e o servidor que não entendia as pregações

Santo Antônio do Deserto. Burgos, Espanha
Santo Antônio do Deserto. Burgos, Espanha
Luis Dufaur
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Houve um santo ermitão que morava num pobríssima cabana na floresta.

Ele mantinha um pobre servidor que não retinha nada dos ensinamentos que ouvia.

E por isso nunca ia assistir pregação alguma.

Ele contou então ao santo anacoreta a causa pela que nunca ia a missão ou catequese qualquer que fosse:

— “Eu não consigo guardar nada do que ouço”.

Então esse santo ermitão lhe disse:

— “Pega essa panelinha”.

Porque ele tinha uma panelinha para cozinhar o peixe, e lhe disse:

— “Põe água a ferver. Quando a água estiver fervendo joga um pouco na panelinha que está toda engordurada”.

E o rústico fez o que ele mandou.

— “Vai, joga tudo fora sem deixar nada”.

Assim fez o serviçal. E o ermitão lhe disse:

— “Agora olha se ela está gordurenta como estava antes”.

O servidor tapado disse que de fato estava menos engordurada.

Então o ermitão voltou a dizer:

— “Acrescenta mais uma vez um pouco de água fervendo e joga-a fora”.

Ele o fez. E ficou ainda mais limpa.

São Bernardino de Siena foi autor de muitas fábulas moralizadoras. Benvenuto di Giovanni (1436 - 1509-1518)
São Bernardino de Siena foi autor de muitas fábulas moralizadoras.
Benvenuto di Giovanni (1436 - 1509-1518)
E lhe ordenou agir da mesma maneira diversas vezes. E de cada vez a panelinha estava mais limpa.

Por fim, o santo ermitão lhe disse:

— “Tu falas que não reténs nada na cabeça! Sabes por quê? Porque tu tens tua mente engordurada como estava a panela.

“Vai e enche-a de água e verás que logo tua mente se purificará.

“E acrescenta um outro pouco. E quanto mais, mais limpa ficará.

“Quanto mais vezes ouvirás a palavra de Deus, tanto mais tua mente se desentupirá.

“E quanto mais limpa ficar, tanto mais compreenderás a palavra de Deus.

“No fim, tua mente estará inteiramente limpa e purificada sem sujeira nem coisa feia alguma”.



(Autor: San Bernardino de Siena, “Apologhi e Novellette”, Intratext)



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domingo, 25 de junho de 2017

Como São Francisco pregou às aves e fez calar as andorinhas

São Francisco de Assis prega aos passarinhos (detalhe). Ambrogio Bondone, chamado Giotto  (1266-7 – 1337).
São Francisco de Assis prega aos passarinhos (detalhe).
Ambrogio Bondone, chamado Giotto  (1266-7 – 1337).
Luis Dufaur
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O humilde servo de Cristo São Francisco, pouco tempo depois de sua conversão, tendo já reunido e recebido na Ordem muitos companheiros, entrou a pensar muito e ficou em dúvida sobre o que devia fazer, se somente entregar-se à oração, ou bem a pregar algumas vezes.

E sobre isso desejava muito saber a vontade de Deus.

E porque a humildade que tinha não o deixava presumir de si nem de suas orações, pensou de conhecer a vontade divina por meio das orações dos outros.

Pelo que chamou Frei Masseo e disse-lhe assim:

“Vai a Soror Clara e dize-lhe da minha parte que ela com algumas das mais espirituais companheiras rogue devotamente a Deus seja de seu agrado mostrar-me o que mais me convém: se me dedicar à pregação ou somente à oração.

“E depois vai a Frei Silvestre e dize-lhe o mesmo”.

Este fora no século aquele monsior Silvestre, que vira uma cruz de ouro sair da boca de São Francisco, a qual era tão alta que ia até ao céu e tão larga que tocava os extremos do mundo.

Era este Frei Silvestre de tanta devoção e de tanta santidade, que tudo quanto pedia a Deus obtinha e muitas vezes falava com Deus; e por isso São Francisco tinha por ele grande devoção.

Foi Frei Masseo, e conforme a ordem de São Francisco, deu conta da embaixada primeiramente a Santa Clara e depois a Frei Silvestre.

O qual, logo que a recebeu, imediatamente se pôs em oração e, rezando, obteve a resposta divina, e voltou a Frei Masseo e disse-lhe assim:

domingo, 11 de junho de 2017

O boi voador de Saint-Ambroix

O boi chamado Caïet salvou a concórdia geral
Luis Dufaur
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Há muitos séculos – pois esta lenda se perde na noite dos tempos – a colheita de uvas foi fabulosamente abundante, excessiva demais e verdadeiramente incalculável, em Saint-Ambroix (Santo Ambrósio), na região de Gard, França.

Pelo excesso de uva, não havia mais um recipiente livre na cidade. Era impossível guardar adequadamente todo esse vinho.

O que fazer?

A desavença tomou conta dos habitantes cuja única renda era o fruto da terra.

‒ “Se nós não fazemos algo, vamos perder tudo”, disse um deles.

‒ “Sim, é verdade, o vinho vai estragar”, disse outro.

‒ “É culpa de nosso governante”, disse um terceiro, apontando para a casa do prefeito, chamado Roustan.

‒ “Poderemos engolir todo esse vinho até ficarmos bêbados”, grunhiu um maltrapilho deitado num banco.

domingo, 28 de maio de 2017

O lenhador que queria ficar rico sem trabalhar

O tesouro do castelo de Hohenstein
O tesouro do castelo de Hohenstein
Luis Dufaur
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Ficaram umas ruínas do castelo de Hohenstein, na Alemanha.

Elas não dão ideia da grandeza daquela cidadela medieval, e da riqueza de seu senhor.

Uma legenda conta que:

“Há já muito tempo, naquela densa floresta, um lenhador trabalhava duramente perto da cidadela.

“O lenhador, entretanto, acariciava um sonho. Ele até falava em alta voz, quando ninguém o ouvia:

‒ “Que tal ficar rico sem trabalhar? Uma sorte, um inesperado, e a gente acha um tesouro. Ah! Nunca mais trabalhar... que bom!

“O diabo que andava por ali perto pegou a coisa no ar e aprontou uma das dele.

“Quando os últimos raios de sol desapareceram por trás da colina, o lenhador parou seu serviço e pegou o caminho de volta.

“O demônio tinha ali montado uma arapuca. Como de pura sorte o lenhador julgou perceber entre as ruínas do castelo uma curiosa pilha de materiais transparentes e desconhecidos.

domingo, 14 de maio de 2017

A pedra furada

Castelo de Vizille
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No cimo de uma colina de 1220 metros de altura, no sul do departamento de Isère há um singular arco de pedra. Ele é chamado “A Pedra Furada”.

Esta magnífica escultura natural tem uma explicação que fez nascer uma lenda tida como verdadeira.

“O duque de Lesdiguières, senhor do castelo de Vizille, era um grande caçador. Para conservar os animais dentro de seu território decidiu construir um muro imenso que daria a volta em todo seu feudo. Porém, o custo da realização era exorbitante.

“Ele não podia gastar tanto dinheiro só por sua paixão, mas contorcia-se de desejos de fazé-lo.

Satanás, porém, ficou sabendo que o duque andava com essa caprichosa “necessidade” e decidiu fazer uma visitinha demoníaca ao agitado duque.

‒ “Senhor duque, fiquei sabendo de vosso belo desejo, tão grande e admirável, que eu decidi construir para Vossa Senhoria esse imenso muro gratuitamente”, disse o diabo bajulador.

domingo, 30 de abril de 2017

A perfeita alegria segundo São Francisco de Assis

San Francisco e a perfeita alegria
San Francisco e a perfeita alegria
Luis Dufaur
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Vindo uma vez S. Francisco de Perugia para Santa Maria dos Anjos com frei Leão, em tempo do inverno, e o grandíssimo frio fortemente o atormentasse, frei Leão perguntou-lhe:

São Francisco recebe os estigmas, <span class="st"><em>Giotto</em> di Bondone (1267 — 1337), Museu do Louvre
São Francisco recebe os estigmas,
Giotto di Bondone (1267 — 1337), Museu do Louvre
‒ Pai, peço-te, da parte de Deus, que me digas onde está a perfeita alegria.

E São Francisco assim lhe respondeu:

“‒ Quando chegarmos a Santa Maria dos Anjos, inteiramente molhados pela chuva e transidos de frio, cheios de lama e aflitos de fome, e batermos à porta do convento, e o porteiro chegar irritado e disser:

“‒ Quem são vocês?

“E nós dissermos:

“‒ Somos dois dos vossos irmãos, e ele disser:

“‒ Não dizem a verdade; são dois vagabundos que andam enganando o mundo e roubando as esmolas dos pobres; fora daqui!

“E não nos abrir e deixar-nos estar ao tempo, à neve e à chuva, com frio e fome até à noite: então, se suportarmos tal injúria e tal crueldade, tantos maus tratos, prazenteiramente, sem nos perturbarmos e sem murmurarmos contra ele (...) escreve que nisso está a perfeita alegria.

domingo, 16 de abril de 2017

O combate contra o gigante Ferragut


Luis Dufaur
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Terminada a conquista da região de Monjardin, anunciaram a Carlos Magno que em Najera havia um gigante da raça de Golias, chamado Ferragut.

Tinha vindo da Síria, enviado pelo emir de Babilônia com 20.000 turcos, para combater o monarca franco. Possuía o vigor de quarenta homens fortes. Media uns sete pés.

Quando o gigante se inteirou da chegada do Imperador, saiu alegre ao seu encontro e lhe propôs um combate singular. Um cavaleiro devia lutar contra ele.

Saiu primeiro Ojeros até Ferragut, e o gigante pegou-o com sua mão direita e o levou como uma ovelha até a cidade. Carlos mandou Reinaldo de Montalbán.

Tomando-o pelo braço, Ferragut o encerrou no cárcere da cidade. Tiveram idêntica sorte vários guerreiros. Carlos desistiu então da idéia de prosseguir a luta.

Roland pediu permissão ao Rei para medir as suas forças com o gigante.

domingo, 5 de março de 2017

Como o arcebispo Turpin soube
da partida de Carlos Magno para o Céu

Visão do arcebispo Turpin, vendo ao rei islâmico Marsile, inimigo de Carlos Magno levado ao inferno pelos demônios, Bibliothèque National de France, doc. FR2813_01_038
Visão do arcebispo Turpin, vendo ao rei islâmico Marsile, inimigo de Carlos Magno
levado ao inferno pelos demônios, Bibliothèque National de France, doc. FR2813_01_038
Luis Dufaur
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"Eu Turpin, arcebispo de Reims, estando em Viena, após ter celebrado a Missa em minha capela, como estava só para dizer minhas horas, tendo começado o Deus, in adjutorium meum, ouvi passar sob minhas janelas um grande bando que atraiu minha atenção; ele marchava em meio a muito barulho e clamores.

Abri a vidraça para ver o que causava esse tumulto; e, adiantando a cabeça, reconheci que era uma legião de demônios, mas tão numerosos que não era possível contá-la.

Ainda que eles fossem a grandes passos, percebi entre eles um demônio menos alto que os outros, cujo aspecto, contudo, era horrível.

Ele era precedido por um primeiro grupo, e marchava na liderança do segundo, que se entrelaçava após ele, a alguns passos de distância.

Eu o conjurei, no nome do Criador e pela fé cristã, de me declarar in loco aonde ele ia com esses grupos.

– Nós vamos, me respondeu ele, nos aproveitar da alma de Carlos Magno, que, nesse momento, parte desse mundo.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O fruto que o Menino Jesus aceitou de um menino pobre

Menino Jesus do Pensamento, escola espanhola
Menino Jesus do Pensamento, escola espanhola
Luis Dufaur
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Nada mais comovedor do que a lenda do pequenino predileto da Virgem Mãe e do Menino Jesus, o Bem-aventurado Hermano José.

Menino de maravilhosa pureza de coração, fugia com a maior cautela de companheiros mal educados e de jogos ruidosos.

Pelo contrário, em parte alguma gostava mais de estar do que na igreja, e a sua delícia particular era orar diante das imagens da Mãe de Deus, que já tinha escolhido por Mãe sua.

Seu nome era Hermano. Ainda hoje se mostra em Colônia, na Igreja de Santa Maria do Capitólio, o lugar onde, segundo uma piedosa tradição, com filial singeleza conversava com o Menino Jesus e sua Santa Mãe.

Ali saudava Maria, quando ia para a escola. Para ali se retirava, enquanto os seus condiscípulos jogavam ou se entregavam a outros brinquedos próprios da idade.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

A ponte do diabo em Montoulieu

A Ponte do Diabo, Montoulieu
A Ponte do Diabo em Montoulieu
Luis Dufaur
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Perto da formidável fortaleza de Foix, na região de Languedoc, França, não longe da fronteira com a Espanha há uma ponte.

É a ponte de Montoulieu que existe até hoje.

Há turistas que chegam perto, mas não sabem o que fazem!

É melhor ir bem confessado!!! exclamam os que conhecem. Pois dela se conta a seguinte história:

Numa manhã, Raymond Roger, conde de Foix, acordou de péssimo humor. Passara mal na noite por culpa do javali que jantou na noite anterior.

Desse jeito, fez selar seu cavalo favorito e partiu ao galopo rumo às montanhas.

Ele atravessou logo o burgo de Foix e entrou pelo caminho que corre ao longo do rio Ariège. Ele ia pelo lado esquerdo cavalgando no sentido contrário da correnteza.

Assim ele passou por Ferrières e Prayols. Mas, logo depois lhe deu na fantasia de mudar de lado. Ele mandou o cavalo cruzar o córrego. Porém, naquele lugar o rio Ariège corre entre paredes de pedra enormes e a água é profunda.

O cavalo não quis passar. O conde ficou furioso, deu meia-volta e voltou para o castelo.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

São Francisco, o frade orgulhoso e o enviado de Deus


Luis Dufaur
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No tempo de S. Francisco de Assis vivia um frade que achava estar à altura da inteligência de um anjo.

Aconteceu que um dia São Francisco estava rezando na floresta, quando um jovem veio até a porta do mosteiro e começou a bater bem forte, por tanto tempo, que os frades surpreenderam-se com o barulho. Um deles foi até a porta, abriu-a e disse ao jovem:

— Obviamente você nunca esteve aqui antes, pois não sabe como bater em nossa porta adequadamente.

— Como então devo bater?

— Bata três vezes lentamente, então espere até que os frades possam dizer um Padre Nosso. Se ninguém vier, bata novamente.

— Estou com muita pressa, por isso bati tão forte. Envie-me Frei Elias, pois eu lhe farei uma pergunta. Ele é muito sábio.

Frei Elias ficou ofendido com o modo do pedido, e não queria ver o jovem. Novamente ele começou a bater, tão alto quanto antes. Mais uma vez o frade foi até a porta, e disse:

— Você não observou minhas instruções de como bater.

domingo, 8 de janeiro de 2017

O alcaide-mor de Faria, Nuno Gonçalves

Alcaide de Faria

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A breve distância da vila de Barcelos, nas faldas do Franqueira, alveja ao longe um convento de franciscanos. Aprazível é o sítio, sombreado de velhas árvores.

Sentem-se ali o murmurar das águas e a bafagem suave do vento, harmonia da natureza, que quebra o silêncio daquela solidão — a qual, para nos servirmos de uma expressão de Frei Bernardo de Brito — com a saudade de seus horizontes parece encaminhar e chamar o espírito à contemplação das coisas celestes.

O monte que se alevanta ao pé do humilde convento é formoso, mas áspero e severo, como quase todos os montes do Minho. Da sua coroa descobre-se ao longe o mar, semelhante a mancha azul entornada na face da terra.

O espectador colocado no cimo daquela eminência volta-se para um e outro lado, e as povoações e os rios, os prados e as fragas, os soutos e os pinhais apresentam-lhe o panorama variadíssimo que se descobre de qualquer ponto elevado da província de Entre-Douro e Minho.

domingo, 27 de novembro de 2016

O cofre de oro do castelo de Dreistein

Luis Dufaur
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Na região de Ottrot havia muitos castelos. Infelizmente, o tempo transformou-os em ruínas.

Mas, há pessoas que acham que eles ainda estão habitados pelos fantasmas dos antigos e riquíssimos senhores. Isso deu origem à lenda do “cofre de oro do castelo de Dreistein”.

Há muito tempo, uma moça passeava sozinha pela floresta à procura de alguns fungos para reforçar sua pobre sopa, aliás, bem fraca.

Seus olhos estavam fatigados após procurar tanto entre o capim o pouco que havia de comestível naquela época de seca.

Por trás de um pequeno mato ela ficou surpresa vendo um homem belo, vestido como um príncipe que caminhava galantemente no bosque.

‒ “Deve ser que meus olhos estão fatigados demais e me enganam”, pensou ela.

domingo, 13 de novembro de 2016

O exorcismo de Frei Garin
e os artifícios do diabo para perdé-lo

Montserrat, panoramica
Luis Dufaur
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Em 859, sendo Conde de Barcelona Vifredo o Zeloso, havia na montanha de Montserrat um anacoreta chamado Garin, que possuía grande virtude e piedade.

Todas as manhãs subia nos picos das montanhas, para louvar a Deus em sua grandeza, e quando voltava à sua gruta o sino da igreja de São Acisdo tocava sozinho para saudá-lo. O demônio, muito contrariado, se propôs a perdê-lo, e para isto empregou todas as suas armas.

Uma manhã, Frei Garin subiu a São Jerônimo, o pico mais alto de Montserrat, com o afã de ver mais de perto o céu, de sentir-se mais próximo de Deus. Porém, naquele dia, pela primeira vez, o demônio o tentou a olhar para o lindo campo, em vez de olhar para o céu.

Contemplou longamente as serras de Valência e de Aragão. Embevecido, avistou Mallorca e os campos de Catalunha. Ao ver-se acima de todos, sentiu-se orgulhoso de sua própria grandeza. Dominava tudo, tudo podia contemplar. Sentia-se dono de tudo.

domingo, 30 de outubro de 2016

O rapaz que foi estrangulado pelo demônio

Detalhe do Juízo Final na fachada de Notre Dame de Paris
Detalhe do Juízo Final na fachada de Notre Dame de Paris
Luis Dufaur
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Dois estudantes, dando-se mais à vadiação do que aos estudos, resolveram ir passar a noite numa casa suspeita.

Por um resto de pudor, porém, um deles desistiu e ficou na pensão, indo só o outro.

Na hora de deitar-se, segundo o seu hábito, o primeiro rezou ao pé da cama três Ave-Marias.

Era um costume de família, que manteve no colégio onde fez seus preparatórios.

Logo que se deitou, ouviu umas pancadas na porta, e o seu infeliz companheiro apareceu no quarto. Que mudança!

Que rosto lívido!

— Que lhe aconteceu? — perguntou.